Tá rindo do quê?
O Orlando contou na última newsletter dele (aqui) sobre duas vezes em que teve ataques de riso no cinema, em filmes que não eram de comédia. Não me lembro disso ter acontecido comigo, mas tive uma vez um ataque de riso inconveniente, num ambiente dos piores possíveis para isso: cercado de militares.
Foi no “Tiro de Guerra”, espécie de micro-quartel na minha cidade (na época, umas 180 mil almas) que era responsável — além da pintura do eventual meio fio — pelo alistamento militar e posterior tortutreinamento dos jovens de 18 anos nas artes da guerra e do jogging com coturno.
Quase todo mundo que eu conhecia queria escapar da obrigação, ainda que o vestir farda e o disparar de um ou outro tiro de fuzil tivessem o seu apelo, para alguns (a farda exercia tamanha atração que houve até um caso de roubo, em que várias foram subtraídas do TG, e dois amigos meus foram apontados como “cabeças” do esquema, mas essa é outra história).
Proliferavam, à boca pequena, receitas infalíveis para conseguir a almejada dispensa. Um amigo garantiu que era só beber um copo cheio de água com sal logo antes do exame médico, e entraria na cota dos que tinham pressão alta.
Outro me garantiu que bastava eu alegar para o médico que eu tinha “epistache”, uma doença que causa sangramentos incontroláveis do nariz. Segundo ele, era tiro e queda para evitar o Tiro. Isso foi muito antes da epidemia de pistache que ora nos assola, e eu nunca tinha ouvido essa palavra antes e nunca mais voltaria a ouvir, de modo que tive lá minhas dúvidas se aquilo existia mesmo ou ele estava querendo me pregar uma peça, causando não só minha admissão nas fileiras verde-oliva mas também uma pequena humilhação ao ser pego inventando doença.
Achei melhor investir nas dores nas costas, outro tema que me garantiram ser infalível. Eu tinha raios-X da coluna que mostravam de fato tanto lordose quanto escoliose. Para garantir, decidi alegar que a dor exigia remédios. Fui a uma farmácia e perguntei qual era a droga mais forte para dor nas costas. “Voltaren”, assegurou a moça. Pronto, eu ia alegar que tomava isso.
Ocorreu-me que o sargento, tenente, capitão, sei lá, poderia jogar uma isca, “Ah, sei, aquele verde, compridinho, né?”, para então, frente à minha inevitável concordância, tomar-me pelo braço esclarecendo que esses comprimidos eram amarelos e redondos. Para me garantir contra essa possível esperteza, comprei uma caixa.
Nem precisou. Fui dispensado só com base nas imagens. Podia ir embora um homem livre, depois de “jurar à bandeira”. Coisa simples. Ficar em pé, estender o braço, repetir o que dizia a autoridade.
Só que o cara começou com aquele papo deles lá, porque a pátria, a honra, a guerra, o inimigo, etc. Ele falava num tom muito sério, mas depois de algumas frases eu encontrei uma graça irresistível naquilo e desatei a rir, a chorar de rir, a ponto de alguns outros dispensados virarem a cabeça para o meu lado e eu começar a ficar com medo dele parar o discurso e me mandar lavar as latrinas com uma escova de dente.
No fim, sai dali sem fazer o tal juramento à bandeira. Confio que o caso não seja grave. Estou aqui de prontidão, caso a pátria me necessite, coisa que não vai acontecer.
Foi só quase 30 anos depois que eu peguei numa arma pela primeira vez, uma pistola semi-automática bonita, não sei o modelo. Não fiz feio, acertei meia dúzia dos vinte tiros que disparei contra uma latinha, a uns cinco metros de distância (parei nos vinte depois de ser informado que cada projétil custava R$5). A coisa é bem mais difícil do que parece. Desde então, toda vez que vejo num filme o sujeito acertar um alvo em movimento a mais de dois passos eu sei que é marmelada.


