Primeiramente, fora Prigogine
Preâmbulo a uma história
Esta semana me aconteceu uma coisa curiosa. Uma coisa engraçada, ou talvez triste, ou talvez ainda uma coisa um pouco assustadora.
Para poder contar o que aconteceu, eu teria de fazer uma longa digressão, dedicada basicamente a falar mal de alguém.
Então, vamos a isso.
Quero falar mal do cientista belga de origem russa Ilya Prigogine. Respeitadíssimo por pessoas que não entendem muito de física, ganhador do Prêmio Nobel (de Química) em 1977, faz a cabeça do pessoal de humanas que gosta de apoiar o cotovelo nos pilares da ciência.
Encontro num artigo sobre ele as seguintes passagens: “Suas ideias inovadoras nos levam a repensar o papel do nosso tempo, a nossa visão sobre o conhecimento e, particularmente, sobre as leis fundamentais da física”; “A visão de Prigogine é radicalmente nova”; “uma reformulação das leis fundamentais da física, como propõe Prigogine (...)”.
Ele próprio é um cara sem muita modéstia. Em O Fim das Certezas ele escreve:
A ambição deste livro é apresentar essa transformação das leis da física e, portanto, de toda a nossa descrição da natureza
e afirma que
em qualquer nível que seja, a física e as outras ciências confirmam nossa experiência da temporalidade: vivemos num universo em evolução. Este livro visa mostrar que a última fortaleza que resistia a esta afirmação acaba de ceder. Estamos, agora, em condições de decifrar a mensagem da evolução tal como ela se enraíza nas leis fundamentais da física.
A preocupação central do Prigogine, o prego que ele martelava sem parar, era reconciliar a existência de fenômenos naturais irreversíveis com a reversibilidade das equações de movimento da mecânica clássica. Ou seja, o movimento de uma única partícula é sempre reversível, mas a evolução de um número enorme delas é irreversível (um gás se expande, mas não se contrai; um cubo de gelo derrete, mas não volta a se congelar).
Ludwig Boltzmann já tinha explicado que é tudo uma questão de probabilidades. Água pode se congelar espontaneamente, mesmo à temperatura ambiente, mas isso nunca é observado porque a chance de acontecer é muito pequena. Para observar uma flutuação espontânea de 0,1% na densidade de um centímetro cúbico de gás em equilíbrio temos de esperar um tempo maior que a idade do universo.
Prigogine não estava satisfeito com isso. Ele queria uma teoria na qual a evolução para o equilíbrio seja realmente, mecanicamente, microscopicamente, definitivamente, irreversível. Se não for assim, dizia ele, então “o tempo é uma ilusão” (“Nós, humanos, observadores limitados, seríamos responsáveis pela diferença entre passado e futuro”). Para alcançar tão ambicioso objetivo, seria preciso revolucionar a mecânica clássica, a mecânica quântica, a física inteira. E era exatamente isso que ele afirmava ter feito, em um livro após o outro, de novo e de novo, até um monte de gente acreditar.
O truque dele era restringir a análise dinâmica a distribuições de probabilidade. Digamos que estou tentando matar uma barata, porém não tenho informações exatas sobre onde ela está, pode estar embaixo do sofá, pode estar atrás do pé da mesa, pode estar parada ou indo para o quarto. Então uso uma linguagem probabilística, como fazemos com o clima: tantos porcento de chance de que chova amanhã, tantos porcento de chance de que a barata esteja em tal lugar. Acontece que, ao longo do tempo, a incerteza só aumenta. O clima daqui um ano é imprevisível; depois de horas, a barata pode estar em qualquer lugar. Esse processo é irreversível: a incerteza nunca diminui, só aumenta (basicamente, é a segunda lei da termodinâmica).
Não há nada de realmente novo nesse raciocínio, Boltzmann já tinha entendido isso. Mas Prigogine faz uma fanfarra enorme. Segundo ele, redescobrimos o tempo, as “leis do caos” (título de um de seus livros) e fazemos uma “nova aliança” (título de outro livro; são todos equivalentes) com a natureza.
A descrição probabilista é mais rica que a descrição individual (...) A equivalência entre o nível individual e o nível estatístico é totalmente destruída.
As trajetórias são eliminadas da descrição probabilística (...) Devemos, portanto, eliminar a noção de trajetória de nossa descrição microscópica.
Isso tudo é retórica. O que ele está dizendo é que você deve desistir de matar a barata, porque probabilisticamente ela não poderá nunca ser encontrada, já se espalhou de forma absolutamente irreversível e, de alguma maneira, agora está pela casa toda. Talvez seja hora de fazer uma “nova aliança” com as baratas, afinal não queremos que o tempo seja uma ilusão, certo?
Nada disso. A ideia de que a descrição probabilística é mais fundamental simplesmente não faz sentido. O aumento irreversível da incerteza reflete apenas nossa ignorância, não é uma lei da natureza.
A verdade é que, apesar de seu prestígio em certos círculos, Prigogine não tem nenhuma reputação na comunidade dos físicos, não porque seu pensamento seja revolucionário, mas porque não deu contribuições relevantes.
Agora posso contar o que me aconteceu, mas este post já está muito longo.

