Pesquisa x Aulas
Ser cientista e docente
“Quem sabe, faz; quem não sabe, ensina”. Era assim que um professor meu tirava sarro dos colegas que não faziam pesquisa e só se concentravam na docência, nas aulas. Contexto: um dos principais institutos de pesquisa em física do Brasil.
Pesquisar, fazer descobertas, publicar artigos, dar palestras, participar da comunidade internacional, ser um cientista de verdade, era isso que importava. Dar aula é o que resta para quem não conseguiu alcançar esse nível, era isso que ele achava.
De fato, os programas de pós-graduação e os estágios de pós-doutorado quase não se preocupam com a dimensão da docência, estão bem mais preocupados em formar pesquisadores. Os concursos para contratação de professores universitários também não dão muita atenção à competência dos candidatos em sala de aula e sim com seu currículo Lattes.
Fiz minha carreira dessa forma. Fiz doutorado na USP, pós-doc na Unicamp, pós-doc no exterior, fui professor da Federal de São Carlos e da Federal de Uberlândia, fui pesquisador visitante na USP e na Unicamp. Publiquei 65 artigos científicos. No mês passado, cheguei ao cume da carreira: virei Professor Titular.
Ao final desse processo, minha visão não coincide com a daquele professor. Hoje eu acho que valorizo mais a docência do que a pesquisa. Meus artigos foram lidos e citados. Não muito, mas foram. Fui a conferências, participei da comunidade internacional. Adorei ser cientista. Mas os resultados disso ficaram tão restritos, dentro de um círculo de especialistas tão pequeno…
Em contraste, a docência se multiplica. Dar aulas é ajudar a formar gente nova, gente competente, que vão sair por aí fazendo mil coisas diferentes, que eu nem sei. Vão ser cientistas também, vão ser docentes também, mas hão de ser outras coisas, engenheiros, bancários, músicos, programadores, todo tipo de profissões, e vão ser cidadãos alfabetizados cientificamente. Sem falar que, no curso de licenciatura, formamos os futuros professores dos nossos jovens.
A pesquisa tende a ser centrípeta, voltada para si mesma; a docência é centrífuga, aberta para fora.
Por isso, durante a sabatina por uma banca avaliadora que faz parte do processo de promoção para Titular, eu disse que hoje dou mais valor à docência do que à pesquisa, afirmação que foi recebida com certa frieza pelos colegas, hehe. Eles queriam saber quais serão os temas dos meus próximos artigos, eu estou pensando nos temas das próximas aulas.
Eles queriam saber quais dos meus artigos científicos eu mais me orgulho de ter escrito, mas o que me dá mais orgulho são trechos como estes, que tirei das avaliações semestrais que meus alunos fazem de mim:
“Professor excepcional, parecia realmente ter o domínio completo da matéria, podendo sanar qualquer dúvida dos alunos”
“Realmente bom em tudo, em tudo, didática, explicativo, inteligente e conseguimos seguir o raciocínio dele de uma forma leve”
“Demonstra um domínio incrível de todo o conteúdo ensinado, além de demonstrar uma preocupação grande para com o entendimento de cada um dos alunos”
“Extremamente atencioso e compreensivo. Aulas interessantes e divertidas”
“Explica bem, sabe muito bem a matéria e o que está passando, além da prova ser muito coerente com as listas, e a correção muito justa e boa”



Que curioso: quando recebi a notificação da newsletter, estava pensando justamente nesse assunto, prestes a sair para a minha aula no outro campus. Para alguém que acabou de sair do probatório, período no qual me pareceu inevitável se dedicar mais à preparação de aulas do que à pesquisa, é animador ver um colega que tenha essa opinião. E parabéns pela promoção!
Excelente Professor.
Excelente, Professor.