Começo de "O boçal"
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Abaixo, os primeiros parágrafos de O boçal, conto que integra o livro “A grande batalha”, publicado há pouco pela editora Danúbio.
Rapaz, eu agora estou meio quebrado, mas já estive bem. Estive muito bem. Andava de carrão. Jogava tênis, nadava no clube. Sabe como é? Eu era proprietário de um laboratório que fazia análises de DNA. Coisa de ponta. Aqui no Brasil? Fui pioneiro. Não era assalariado, não, era dono mesmo. Mas pegava firme como todo mundo. Chegava antes das oito, saía depois das seis. Trabalho duro. Não tem outro jeito, não.
Análise de DNA é o futuro. Está só começando. Para a polícia vai ser mel na sopa, chega na cena do crime, coleta o DNA, põe no banco de dados, pá e pum, acha o criminoso. Um dia o DNA de todo mundo vai estar cadastrado. Que nem lista telefônica. Não existe mais lista telefônica, mas esse catálogo ainda vai existir. Esse é o mundo em que nós estamos: entre a lista telefônica e a lista de DNA. Eu estava nessa linha de frente. Fiz doutorado, amigo. Pós-doutorado. Cientista mesmo, no duro. Mas só estudar não dá dinheiro, então montei meu negócio.
Fazer exame de DNA. Para mim, era coisa simples, de olho fechado. Para quem contratava, era sério, muito sério. Vida ou morte. Entende? Nada a ver com polícia. Aqui é Brasil, polícia tá longe dessas coisas. Não tem CSI, porra nenhuma. Mas paternidade é assunto importante em todo lugar. Já pensou você não saber quem é seu pai? Dúvida antiga, desde os tempos da caverna, mesmo. Tragédia grega, tudo mais. Todo mundo sabe quem é a mãe, mas o pai? Aí que o bicho pega. Tô certo? Pode ser qualquer um. Homem não engravida, amigo. Se homem engravidasse, o mundo seria diferente, bem diferente.
Meu laboratório ia bem. Cada história que você não imagina. É o que eu estou te falando, paternidade é problema sério. Todo dia aparecia uma moça com amostra do filho e de algum cara, para saber se era o pai. Às vezes era, às vezes não era. Teve uma que levou amostras de cinco homens, um depois do outro. Pá, pá, pá, pá, pá. Não sabia qual deles era o pai do nenê. Podia ser qualquer um dos cinco. Brincadeira? A gente via cada coisa. Ela testou primeiro o mais rico deles. Não era. Testou o segundo mais rico. Também não era. Testou o terceiro, foi testando até chegar no mais pobre. Era esse. Você tinha que ver a cara dela. Coitada.
Todo dia aparecia uma dessas. Outras questões, também. Problemas de herança, problemas de doença. Eu nem quero saber. Me dá as amostras, eu testo, passo o resultado, até logo, tchau e bênção. Profissionalismo. Ali era coisa de primeiro mundo. Sacou? Tava indo bem demais. Vários projetos. Vários. Uma empresa grande me procurou. Queria cadastrar o DNA dos funcionários mais importantes, talvez de todos. Sei lá eu para quê. Não faço perguntas, o cliente sempre tem razão. Antiético? Algumas pessoas disseram isso. Se a lei permite, acabou. Se o cara doou a saliva voluntariamente, já era. Passou na máquina, tá cadastrado. Tô certo? Vai ver, eles queriam descobrir quem engravidou a mulher do chefe, ou se tinha gente pondo a mão onde não devia. Não era problema meu. Se decidissem cadastrar todos os funcionários, eu teria renda garantida por muito tempo.
Podíamos fazer coisas mais arrojadas, também. Fronteira, mesmo. Testar o DNA do feto ainda na barriga da mãe. Já pensou? Não precisa nem esperar nascer. Bem mais difícil, mas é possível. Dá pra saber várias coisas. Se é menino ou menina, claro, mas isso aí é bobagem, qualquer ultrassom sabe, até a curandeira da vila sabe. Estou falando de detectar condições genéticas, tendência para desenvolver doenças. Anormalidades cromossômicas, amigo. Coisa avançada, primeiro mundo.
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