Começo de "Mete gol"
Amostra grátis
Abaixo, os primeiros parágrafos de Mete gol, conto que integra o livro “A grande batalha”, publicado há pouco pela editora Danúbio.
Havia muitos terrenos baldios pela cidade, mesmo em regiões não muito distantes do centro. Alguns deles se tornavam campinhos de futebol improvisados, sem linhas, com os limites demarcados pelo mato. Não se falava em grande área e muito menos em pequena. Também não existia impedimento. O que havia de sobra eram moleques dispostos a passar metade do dia jogando bola nesses campos. Jogavam seminus, sem calçados ou camisas, e viviam vitórias épicas e derrotas monumentais. Voltavam para casa com as solas dos pés escalavradas e o corpo coberto de poeira colada com suor.
Não se cogitava em supervisão adulta. Lances duvidosos eram decididos de forma democrática, por aclamação, ainda que eventualmente houvesse uma ou outra tentativa de intimidação, na base do cospe aqui se for homem. Mas nenhum deles era homem. Eram moleques e para aqueles moleques só duas coisas importavam: o gol e o show. Ou seja, a vitória no placar e a vitória moral, para a qual uma bola no meio das pernas valia meio tento. Qualquer das duas só era lembrada até a partida seguinte, no máximo por dois ou três dias se fosse goleada tremenda. O sucesso era efêmero e não deixava registro, não contavam com fotos nem filmagens, não havia sequer torcedores. Um moleque podia se revelar um bamba sem que seus pais ou professores jamais ficassem sabendo. Tinham que confiar na memória, cada um se esforçando para gravar seus feitos nas mentes alheias, às vezes à revelia do interlocutor.
— E aquele chapéu que eu dei no Clóvis, hein?
— Chapéu?
— É, quando estava quatro a três, dei um chapéu, ali no canto.
— Aquilo não foi chapéu.
— Claro que foi, como que não foi? Toquei a bola por cima, assim.
— Mas não pegou do outro lado, para ser chapéu tem que pegar do outro lado, foi só um toque por cima.
Carlito era craque de bola. Reconhecido. Tocava entre as pernas como se nada fosse, parecia adivinhar o próximo movimento do adversário. Magro de tudo, magro de ruim, como dizia sua mãe, flutuava em campo. Em vez de tentar avançar em linha reta, rodopiava por cima da bola como um saci com duas pernas, um diabo no meio do redemunho, riscando e rabiscando feito um compasso, e estava sempre de costas para o combate. Deixava o amigo na cara do gol com um toque inesperado de calcanhar. Irritava ao imitar Garrincha — naquela época se imitava Garrincha —, jogando com o corpo e deixando a bola parada. Era um virtuoso, perdia o gol mas não perdia o drible. E driblava para se divertir, para testar o limite físico do drible, numa disputa mais consigo mesmo e com a natureza do que contra o outro time, de modo que ninguém se sentia humilhado com suas piruetas.
Assim foi que, quando o time de verdade que havia na cidade, com campo de grama, uniforme e tudo o mais, anunciou uma peneira, todos o incentivaram a participar.
— É você, Carlito, chegou a hora.
(…)


